Centro de Referência em Restauração Ecológica (CERRE) é inaugurado na Mata Atlântica fluminense
Como um laboratório a céu aberto, área de 130 hectares em Silva Jardim será restaurada e usada para pesquisas científicas, capacitação e engajamento ambiental. Apoio do projeto GEF Áreas Privadas ao CERRE contempla os eixos de restauração ecológica, agroecologia e pecuária sustentável
A Mata Atlântica do Rio de Janeiro acaba de ganhar o Centro de Referência em Restauração Ecológica (CERRE), um marco na história da proteção deste importante bioma. Em Silva Jardim, o espaço foi inaugurado na última sexta-feira (17/7) pela Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), com apoio do GEF Áreas Privadas.
O centro foi implantado na Fazenda Perdida, também conhecida como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Parque do Mico II e conta com 130 hectares que serão restaurados com o apoio de projetos como o GEF AP.
A cerimônia de inauguração foi conduzida por Luís Paulo Ferraz, secretário executivo da AMLD. Na ocasião, ele explicou sobre a aquisição da fazenda onde fica o CERRE e como a restauração será estratégica para a conexão do habitat do mico-leão-dourado.
“É uma iniciativa da Associação Mico-Leão-Dourado que tem o apoio de diversos parceiros para compartilhar a restauração ecológica de uma fazenda, transformando este processo em conhecimento e em ciência, seja com a academia, ecoturistas, escolas ou visitantes que vêm conhecer o nosso trabalho, promovendo a restauração e compartilhando os desafios que ela traz. Nós também queremos incentivar outros proprietários rurais a fazerem o mesmo, compartilhando informações, técnicas e ideias que possam ajudá-los a fazer um melhor manejo de suas propriedades”, explicou Luís Paulo Ferraz.

O processo de restauração da RPPN poderá ser acompanhado pela comunidade acadêmica e proprietários rurais, já que o centro será berço de novas pesquisas científicas, funcionando como um laboratório a céu aberto.
Por meio do eixo de Restauração Ecológica, o GEF Áreas Privadas financiou o plantio de 10 hectares na Fazenda Perdida, com manutenções previstas para os próximos 3 anos. O projeto também custeou parte da exposição a céu aberto sobre restauração, plantios com voluntários e escolas para engajamento social e parte da reforma do CERRE.
O envolvimento do projeto no Centro vai de encontro com um de seus principais objetivos de restaurar e recuperar a vegetação nativa em áreas privadas. O GEF AP buscou fortalecer a restauração e reduzir a fragmentação da paisagem com ações estratégicas em áreas prioritárias como a região de baixada da Mata Atlântica.
“A criação do CERRE demonstra que parcerias estratégicas são fundamentais para ampliar a escala e a qualidade da restauração ecológica. Para o GEF Áreas Privadas, o apoio a iniciativas como essa significa fortalecer capacidades locais, gerar conhecimento aplicado e promover soluções que conciliem conservação da biodiversidade e desenvolvimento sustentável” afirma Mayne Moreira, Coordenadora Técnica do Projeto GEF AP.
O CERRE também será voltado à capacitação de pesquisadores, estudantes, técnicos e trabalhadores rurais, em metodologias de restauração e monitoramento da biodiversidade. A ideia é que o compartilhamento das experiências e aplicação dos conhecimentos adquiridos fortaleçam ainda mais a economia sustentável e o processo de restauração ecológica na Bacia do Rio São João, como explicou Carlos Alvarenga, engenheiro florestal da AMLD que coordena as atividades do CERRE.
“O objetivo do CERRE é disseminar experiências e ser um amplificador com a ajuda de proprietários rurais e de práticas eficientes de restauração. O centro quer treinar os estudantes em um laboratório a céu aberto. Haverá oficinas, workshops, simpósios, cursos, tudo para incentivar as melhores práticas com o solo e agroecológicas, como os Sistemas Agroflorestais (SAFs). O CERRE vai mostrar que a restauração pode gerar renda e fortalecer a cadeia produtiva da região”, disse Carlos.
Luiz Fernando Moraes, vice-presidente do conselho da AMLD e da Embrapa Agrobiologia, reforça o papel dessa iniciativa enquanto ferramenta de engajamento ambiental voltado à restauração.
“O CERRE vem cumprir uma função essencial diante do principal desafio, que é engajar as pessoas, principalmente os proprietários rurais, nesse esforço de restauração. Porque a restauração, no sentido de melhorar a oferta de serviços ecossistêmicos na paisagem rural, envolve uma mudança de paradigma, que é o proprietário rural compreender que é necessário usar o solo e a área de forma mais sustentável. Então, a restauração é esse convite para um engajamento maior, para que a construção de formas mais sustentáveis de uso do solo ocorra de modo coletivo, com a compreensão e interesse dos proprietários”, ressaltou Luiz.
A iniciativa resulta, ainda, de uma ampla aliança com viveiristas e simpatizantes do programa de conservação do mico-leão-dourado, instituições de pesquisa, universidades e o Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD Rede).
“Esse espaço será extremamente útil para nós da academia, principalmente para o treinamento e formação dos nossos alunos e técnicos. É um centro de referência que vai proporcionar a oportunidade de observar as técnicas, manejo e todo o processo que envolve uma restauração ecológica – além de disponibilizar para a comunidade acadêmica uma estrutura que contribui muito para o trabalho de campo: alojamento, apoio de laboratório e a área de plantio em si, que passa a funcionar como um laboratório de campo. Um processo de restauração envolve muitos recursos, portanto, ter acesso a essas áreas facilita bastante nossas pesquisas e permitirá que contribuamos com o conhecimento gerado”, disse Marcelo Trindade Nascimento, chefe do Laboratório de Ciências Ambientais da UENF e curador do Herbário UENF.
A inauguração do CERRE contou com a presença de representantes de órgãos ambientais municipais, estaduais e federais, além de pesquisadores, proprietários rurais e entidades parceiras.
Unidade Demonstrativa de Pecuária Sustentável

Na ocasião, além de conferir a exposição interna e ao ar livre com painéis informativos sobre a restauração ecológica, o público realizou o plantio de mudas nativas da Mata Atlântica e visitou a Unidade Demonstrativa (UD) de Pecuária Sustentável lançada durante o evento, em uma propriedade parceira.
Na UD, implantada com apoio do GEF Áreas Privadas pelos eixos de agroecologia e pecuária sustentável, serão aplicadas técnicas para o melhor manejo da pastagem, visando o aumento da produção impulsionado por práticas integradas à proteção e recuperação dos recursos naturais.
Na ocasião, o zootecnista Alisson Rodrigues Jordão tirou dúvidas sobre o trabalho desenvolvido no local, falou dos desafios e dos resultados promissores.
“Um dos desafios da pecuária hoje é desmistificar alguns preconceitos, um deles é de que meio ambiente, pecuária e agronegócio estão em trincheiras opostas. Quando se pensa numa pecuária moderna, produtiva, eficiente e economicamente viável, é justamente o contrário. Dá para produzir muito mais nas áreas que a gente já tem consolidadas sem necessidade de supressão vegetal, mas sim com adoção de tecnologias e investimentos certos. A gente entende que o produtor rural tem a necessidade de ver acontecer para acreditar e querer apostar. Então, a ideia dessa Unidade Demonstrativa é trazê-lo e mostrar que é possível produzir bem, mais e com qualidade, conservando adequadamente todos os recursos naturais e fazendo o uso eficiente deles”, explicou Alisson.
O Projeto GEF Áreas Privadas – Conservando Biodiversidade em Paisagens Rurais é coordenado tecnicamente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), financiado pelo Global Environment Facility (GEF) e implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Sua gestão financeira é realizada pelo Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). Os principais objetivos são contribuir para a conservação da biodiversidade, fortalecer a provisão de serviços ecossistêmicos e ampliar o manejo sustentável da paisagem em áreas privadas no Brasil.