Oficina fortalece governança e equidade de gênero na agricultura familiar dentro do Projeto GEF Áreas Privadas
Encontro na Chapada dos Veadeiros debateu equidade de gênero, participação social e fortalecimento da agricultura familiar.
Nos dias 16 e 17 de abril, a UnB Cerrado, recebeu a Oficina de Desenvolvimento da Estrutura de Governança e Inclusão de Jovens e Mulheres promovida pela Funatura via Projeto GEF Áreas Privadas no eixo do agroextrativismo em Alto Paraíso de Goiás.
A atividade reuniu lideranças comunitárias, extrativistas e agricultores familiares para debater desigualdades e consolidar a participação social qualificada nos territórios.
Ao longo dos dois dias, os participantes discutiram oportunidades de geração de renda, inclusão de mulheres e jovens em espaços de decisão e estratégias para ampliar a participação comunitária na condução dos empreendimentos coletivos.
Segundo Gustavo Assis, coordenador do eixo Agroextrativismo Sustentável da Funatura, fortalecer a participação de mulheres e jovens nos territórios também é uma estratégia fundamental para a sustentabilidade das iniciativas comunitárias.
“Quando ampliamos a participação e a escuta dentro dos empreendimentos coletivos, fortalecemos não apenas a governança, mas também a permanência das pessoas nos territórios e a construção de soluções mais conectadas à realidade das comunidades”, destacou.
Mais do que uma atividade técnica, a oficina promoveu momentos de escuta e troca de experiências sobre questões presentes no cotidiano das comunidades.
Um dos temas debatidos foi a sobrecarga enfrentada por mulheres no contexto rural. Durante as atividades, Del Rezende, da Associação dos Produtores e do Meio Ambiente do Sertão (APROMAS), compartilhou reflexões sobre a divisão do trabalho doméstico e a importância da criação de espaços de diálogo voltados às mulheres.
“Enquanto falávamos sobre tempo e trabalho, me peguei raciocinando sobre o horário de almoço. Descobri que a gente, de fato, não tem. Nosso horário de almoço é horário de trabalho: lavar vasilha, arrumar o lanche…A gente fica tão imerso, que não raciocina sobre isso”, relatou.
Para Del, fortalecer espaços de escuta e convivência entre mulheres também é uma forma de ampliar a participação e o reconhecimento dentro das comunidades.
A presidente da Cooperfrutos do Paraíso, Thamilis Jesus de Menezes, destacou a importância de ouvir as realidades locais antes da construção de estratégias voltadas às mulheres e juventudes.
“Para trazer melhoria para a vida das mulheres, eu preciso escutar essas mulheres antes. Não dá para tomar decisões sem saber o que há de concreto ali”, afirmou.
Segundo Thamilis, promover participação também significa garantir representatividade nos espaços de liderança e decisão. Ao refletir sobre participação e equilíbrio dentro das comunidades, Thamilis fez uma relação com o próprio Cerrado e a interdependência entre natureza e sociedade.
“O maior exemplo de conexão é a própria natureza. Um depende do outro. Se eu mato uma nascente, isso vai atingir insetos, animais e se estender. Conosco é a mesma coisa; precisamos de um equilíbrio e, para isso, é preciso dar espaço para todo mundo.”
A oficina também contou com a participação de homens nas discussões sobre divisão de tarefas, equidade e transformação social nos territórios. Educador e quilombola da comunidade Kalunga Vão de Almas, Adão Fernandes da Cunha ressaltou a necessidade de ampliar o debate sobre responsabilidades compartilhadas dentro das comunidades.
“As comunidades tradicionais carregam muito essa cultura do conservadorismo machista. A falta de reconhecimento das tarefas domésticas pelos homens ainda é muito forte. A gente precisa falar disso e ajudar na tarefa que só as mulheres estão fazendo, mas que é de responsabilidade de todos”, afirmou Adão.
Adão destacou também que seu papel atual é de constante vigilância e educação, especialmente para com seu filho, visando um futuro onde as mulheres ocupem lugares de destaque na política, no trabalho e no empreendedorismo.
Como encaminhamento da atividade, os participantes contribuíram com elementos essenciais para a elaboração de um guia de gestão de empreendimentos coletivos, com foco na ampliação da participação de jovens e mulheres nos territórios.
A iniciativa reforça o compromisso do Projeto GEF Áreas Privadas com o fortalecimento da governança comunitária, da inclusão social e do desenvolvimento sustentável no Cerrado.
Texto: Thales Lima
O Projeto GEF Áreas Privadas – Conservando Biodiversidade em Paisagens Rurais é coordenado tecnicamente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), financiado pelo Global Environment Facility (GEF) e implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Sua gestão financeira é realizada pelo Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). Os principais objetivos são contribuir para a conservação da biodiversidade, fortalecer a provisão de serviços ecossistêmicos e ampliar o manejo sustentável da paisagem em áreas privadas no Brasil.