Unidade Demonstrativa de Pecuária Sustentável é inaugurada em Silva Jardim, aliando práticas ambientais modernas ao aumento da produtividade
Proprietários rurais poderão acessar fazenda para conhecer processo de produção capaz de reduzir o tempo de engorda do gado enquanto gera bem-estar animal e benefícios ambientais. Espaço foi visitado por representantes do MMA e Projeto GEF Áreas Privadas na sexta-feira (31/07).
Implementar um modelo de agronegócio mais econômico, lucrativo e ambientalmente inteligente é o principal desafio do setor, já que o manejo tradicional afeta a própria produção. Apesar de ser vital para o negócio, o conhecimento sobre técnicas modernas focadas na qualidade da água e do solo nem sempre está acessível aos proprietários rurais, que acabam enfrentando a degradação de recursos naturais básicos e as incertezas quanto ao futuro da atividade.
Para mudar essa realidade na Bacia do Rio São João, Silva Jardim (RJ) passou a contar com uma Unidade Demonstrativa de Pecuária Sustentável, que foi visitada por representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Projeto GEF Áreas Privadas na última sexta-feira (31/07).
A fazenda, inaugurada no dia 17 de julho, está aberta aos proprietários rurais da região, permitindo que vejam a implementação e o resultado desse modelo na prática.
No local, os pecuaristas terão acesso a informações atualizadas sobre a produção eficiente e sustentável de bovinos em sistemas pastoris. Eles conhecerão as vantagens do manejo sustentável das áreas de pasto, da utilização de bioinsumos, do uso de sistemas silvipastoris, de consórcios de pastagens com leguminosas, de gramíneas adaptadas ao sombreamento, entre outras estratégias que conciliam produtividade, inovação e conservação ambiental.
O objetivo é que eles identifiquem técnicas que possam ser aplicadas em suas propriedades para obter melhores resultados.
A Unidade Demonstrativa (UD) está entre as ações implementadas pelo Projeto GEF Áreas Privadas na Mata Atlântica do Rio de Janeiro e faz parte do Centro de Referência em Restauração Ecológica da Mata Atlântica (CERRE), inaugurado neste mês na Fazenda Perdida, propriedade vizinha que terá 130 hectares de área restaurada.

O trabalho na UD ocorre por meio de parceria entre a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) e o grupo Fazendas Boa Fé, sob coordenação do zootecnista e professor do Instituto Federal Fluminense (IFF), Alisson Rodrigues.
“A gente entende que o produtor rural tem a necessidade de ver acontecer para ele poder acreditar e querer apostar. Então, a ideia dessa Unidade Demonstrativa, junto com outros parceiros, é trazê-lo e mostrar que é possível produzir bem, mais e com qualidade, conservando adequadamente todos os recursos naturais e fazendo o uso eficiente deles”, afirma.
Rodrigues explica que é preciso desmistificar alguns preconceitos envolvendo a relação do pecuarista com o meio ambiente.
“Um deles é de que meio ambiente e pecuária estão em trincheiras opostas. Quando se pensa numa pecuária moderna, produtiva, eficiente e economicamente viável, é justamente o contrário desse conceito. Dá para produzir muito mais nas áreas que a gente já tem consolidadas sem necessidade alguma de supressão vegetal, mas com adoção das tecnologias e fazendo os investimentos certos”, destaca o zootecnista.

Bem-estar animal e menor tempo de engorda
O grupo Fazendas Boa Fé já comemora os resultados da transição iniciada há cerca de cinco anos para o sistema de pecuária sustentável, o mesmo que passará a ser amplamente utilizado e acessado por demais proprietários na Unidade Demonstrativa instalada no empreendimento parceiro. Nas áreas com o modelo já consolidado, houve excelência no desempenho reprodutivo do rebanho e redução expressiva no tempo de engorda dos animais.
“Depois que a gente começou a aplicar os conceitos de manejo adequado de pastagem, mesmo preservando todas as áreas de APP, mesmo com excedente de Reserva Legal, tendo RPPN, a gente conseguiu, progressivamente, reduzir o ciclo de engorda do boi: de seis anos para 3,5, depois três, e agora apenas 2,5 anos até o abate. Então, até para os que são mais descrentes e precisam de números, essa redução no tempo é mais do que o necessário para provar que é possível uma plataforma de manejo de pecuária mais eficiente, moderna e que preserva todos os recursos naturais”, afirma o zootecnista.
O conforto térmico garantido pelo sombreamento das pastagens com a integração silvipastoril, a suplementação adequada, o manejo eficiente das áreas de pasto com adubação correta e um programa de melhoramento genético bem definido estão entre as práticas que resultaram no aumento do bem-estar animal, da produção e da sustentabilidade do sistema.
Além da produtividade, Rodrigues enfatizou os ganhos ambientais da integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). O componente florestal, antes visto como “sujeira da pastagem”, hoje é reconhecido como aliado estratégico, garantindo água em volume e qualidade, melhorando o conforto térmico dos animais e reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos por meio da ciclagem de nutrientes.
Carne Carbono Neutro
O grupo Fazendas Boa Fé vem alinhando suas práticas para se adequar aos protocolos exigidos para a certificação Carne Carbono Neutro (CCN), criada pela Embrapa. Esse processo também será estimulado na região, para que a carne bovina entre no mercado internacional com maior valor agregado.
O selo demonstra que a produção ocorreu em sistemas sustentáveis, com o plantio de árvores que neutralizam as emissões de metano do gado, além de favorecerem o bem-estar animal.
“É preciso atender a uma série de protocolos para poder conseguir essa certificação da Embrapa. E pode ser uma perspectiva para a região, tanto que é uma meta nossa nas Fazendas Boa Fé acessar esse mercado de Carne Carbono Neutro. Então, se é possível para a gente, é possível para toda a região”, completou Alisson Rodrigues.
A certificação CCN ainda fortalece a imagem da pecuária brasileira no mercado externo, que vem ampliando as exigências ambientais, com impacto direto nas exportações. A produção de gado vinculada a práticas de desmatamento, por exemplo, é alvo da Lei Antidesmatamento da União Europeia, que está com processo de regulamentação previsto para dezembro deste ano.
Pecuaristas interessados em conhecer mais sobre a Unidade Demonstrativa de Pecuária Sustentável podem manifestar interesse pelo formulário disponível neste link.
Sobre o CERRE
A Unidade Demonstrativa de Pecuária Sustentável é um projeto que integra o Centro de Referência em Restauração Ecológica da Mata Atlântica (CERRE), também inaugurado no dia 17 de julho na Fazenda Perdida, que é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, a RPPN Parque do Mico II.
“O CERRE vem cumprir um papel essencial, diante do principal desafio, que é engajar as pessoas, principalmente os proprietários rurais, nesse esforço de restauração. Porque a restauração, no sentido de melhorar a oferta de serviços ecossistêmicos na paisagem rural, envolve uma mudança de paradigma, que é o proprietário rural compreender que é necessário usar o solo e a área de forma mais sustentável”, explicou Luiz Fernando Moraes, vice-presidente do conselho da AMLD e pesquisador da Embrapa Agrobiologia.
No local, 130 hectares de área serão restaurados com o apoio dos projetos Floresta Viva e GEF Áreas Privadas, além de investidores nacionais e internacionais, como os parceiros ExxonMobil, Irène M. Staehelin Foundation e Save the Golden Lion Tamarin.
O processo de restauração poderá ser acompanhado pela comunidade acadêmica e proprietários rurais, já que o Centro será berço de novas pesquisas científicas, funcionando como um laboratório a céu aberto.
A iniciativa resulta ainda de uma ampla aliança com instituições de pesquisa, como universidades e o PELD Rede (Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração), viveiristas e simpatizantes do programa de conservação do mico-leão-dourado.

Projeto GEF Áreas Privadas – Conservando Biodiversidade em Paisagens Rurais é coordenado tecnicamente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), financiado pelo Global Environment Facility (GEF) e implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Sua gestão financeira é realizada pelo Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). Na Mata Atlântica, o projeto é coexecutado pela Associação Mico Leão Dourado (AMLD) e no Cerrado pela Fundação Pró Natureza (Funatura). Os principais objetivos são contribuir para a conservação da biodiversidade, fortalecer a provisão de serviços ecossistêmicos e ampliar o manejo sustentável da paisagem, em áreas privadas no Brasil.