Projeto GEF Áreas Privadas celebra resultados de ações socioambientais em visita a propriedades rurais na APA da Bacia do Rio São João, no RJ
Uma comitiva do Projeto GEF Áreas Privadas (GEF AP) composta por integrantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) esteve em Silva Jardim (RJ), na última sexta-feira (31/7) e sábado (1° de agosto), para acompanhar os resultados das ações coexecutadas pela Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) na Mata Atlântica, na Área de Proteção Ambiental (APA) da Bacia do Rio São João.
Proprietários rurais que trabalham com a terra e com o ecoturismo, além de educadores e moradores que desenvolvem e participam de projetos culturais e socioambientais, relataram as transformações ocorridas no território e na relação com o meio ambiente.
O projeto criou novas perspectivas econômicas e sustentáveis e fortaleceu o senso comunitário e de pertencimento ao atuar em seis eixos estratégicos: Agroecologia e Pecuária Sustentável, Ecoturismo, Educomunicação, Restauração Florestal, Monitoramento da Biodiversidade e Gestão Territorial, como eixo Transversal de toda as ações.
“Ver tudo isso é impressionante! O Ministério do Meio Ambiente faz a ponte e como órgão público tem o papel de promover a política pública no território. Mas a execução é feita por quem está aqui no dia a dia. Vocês escolhem os resultados e fazem desse projeto uma oportunidade no futuro para novos trabalhos com áreas privadas”, disse Carlos Eduardo Marinello, chefe de gabinete da SBIO/MMA e supervisor do GEF Áreas Privadas, ao se reunir com beneficiários do projeto nos diversos eixos.
Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, professor da PUC-RJ e especialista sênior do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), explica que o GEF Áreas Privadas representa uma mudança no modelo de conservação de espécies, passando de ações focadas apenas na espécie para uma abordagem mais ampla, que envolve toda a paisagem, o entorno e o território onde a conservação da espécie ameaçada está inserida. Scaramuzza, que participou da concepção do projeto, ficou feliz ao ver os resultados alcançados.
“Esse modelo de gestão integrada da paisagem, que leva em consideração as populações locais, o capital natural e o capital social que existe nessa comunidade representa um avanço muito significativo na forma de promover a conservação e a redução do risco de extinção das espécies ameaçadas. Esse trabalho tinha tudo para dar certo aqui em Silva Jardim, fruto do trabalho de longo prazo que AMLD criou aqui”, disse Scaramuzza.

Visita aos SAFS
Na Agroecologia, os produtores rurais Marinete Neves e seu José ganharam um dos 20 Sistemas Agroflorestais Sucessionais (SAFS) implantados ou fortalecidos nos municípios de Silva Jardim, Casimiro de Abreu, Rio Bonito e Macaé. O casal, de Cambucaes, em Silva Jardim, escolheu o SAFS Citros, que vai se estabelecer junto ao cultivo de outros alimentos e em meio a uma nova floresta.
O sistema, visitado pela comitiva na sexta-feira (31), foi implantado em abril e já resultou na colheita e venda de milho verde no 1º Festival Gastronômico de Agroecologia de Silva Jardim, também promovido com o apoio do Projeto GEF AP, no mês de julho, durante o V Encontro Estadual de Agroecologia, que não ocorria há nove anos no estado do Rio.
“Eu nunca imaginaria que daria tão certo! Já tirei 90 espigas para comercializar no festival. Depois eu tirei mais abóbora, eu já estou tirando quiabo. E vai vir a laranja, o limão, o aipim, o guandu. O abacaxi ainda está vindo, porque, como é sucessional, vamos colhendo de cada vez. Então, é muito legal!”, disse Marinete.

Monitoramento e Ciência Cidadã
Cambucaes foi uma das áreas em que grupos de micos-leões-dourados conseguiram sobreviver à febre amarela, que em 2018 dizimou uma grande parte da população na Reserva Biológica de Poço das Antas, Unidade de Conservação Federal que fica próxima ao local. Por isso, a região é estratégica para o monitoramento participativo, no qual Marinete faz parte. Ela passou por capacitação e se tornou voluntária, junto a monitores que atuam em outras áreas. A ação é um braço da Rede de Ciência Cidadã, a Miconsciência, que integra o eixo Monitoramento de Fauna do Projeto GEF Áreas Privadas.
“Tem a ciência cidadã, para receber, pelo WhatsApp, relatos do mico-leão-dourado e da preguiça-de-coleira. Mas também tem a rede de monitoramento participativo com as pessoas aqui da região. A gente selecionou quatro áreas prioritárias nesse início. Em Cambucaes os micos resistiram a febre amarela, e Marinete os escuta sempre por aqui. Mas vamos pensando em novas áreas para expandir essa participação”, explicou a bióloga Camila Rezende, que coordena a Miconsciência.
Outra atividade de destaque apoiada pelo GEF AP ocorreu em 2025, com a reintrodução no habitat natural de micos-leões-dourados resgatados em Togo, na África, vítimas do tráfico internacional. Os primatas seguem sendo acompanhados pela equipe de monitoramento da Associação Mico-Leão-Dourado.
Restauração florestal e UD de Pecuária Sustentável
A conexão florestal é a chave para garantir a sobrevivência do mico-leão-dourado por meio da troca genética entre grupos diferentes. Apesar da população ter chegado a 4.800 indivíduos, a espécie segue ameaçada de extinção por viver isolada em fragmentos da Mata Atlântica.
Por isso, a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) e o reflorestamento em áreas de pastagem foram outro estímulo do Projeto GEF AP na Bacia do Rio São João. Uma das medidas na área foi a instalação da Unidade Demonstrativa (UD) de Pecuária Sustentável, inaugurada em Silva Jardim no dia 17 de julho e visitada pela equipe também na sexta-feira (31).
A fazenda está aberta aos proprietários rurais da região, permitindo que vejam, na prática, a implementação e o resultado do modelo, que alia práticas ambientais modernas ao aumento da produtividade.
O trabalho na UD ocorre por meio de parceria entre a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) e o grupo Fazendas Boa Fé, sob coordenação do zootecnista e professor do Instituto Federal Fluminense (IFF), Alisson Rodrigues.
“A gente entende que o produtor rural tem a necessidade de ver acontecer para ele poder acreditar e querer apostar. Então, a ideia é trazê-lo e mostrar que é possível produzir bem, mais e com qualidade, conservando adequadamente todos os recursos naturais e fazendo o uso eficiente deles”, afirma Alisson.
O grupo também conheceu as instalações do recém-inaugurado Centro de Referência em Restauração Ecológica da Mata Atlântica (CERRE), inaugurado no dia 17 de julho na Fazenda Perdida, que é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (a RPPN Parque do Mico II).
No local, 130 hectares de área serão restaurados com o apoio dos projetos GEF Áreas Privadas, Floresta Viva e investidores nacionais e internacionais. Todo o processo de recuperação poderá ser acompanhado pela comunidade acadêmica e proprietários rurais, já que o Centro será berço de novas pesquisas científicas, funcionando como um laboratório a céu aberto.
Juntas, as áreas geridas pela AMLD agora totalizam 417 hectares voltados à recuperação e conservação da Mata Atlântica de baixada, uma formação que foi praticamente dizimada em todo território nacional.
Representantes do Projeto GEF Áreas Privadas e de outras instituições plantaram mudas nativas da Mata Atlântica numa área em recuperação, entre eles, Rita Mesquita, secretária Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais, do MMA.
“A gente tem muitas ideias, como gestores públicos, muitos sonhos. Mas é na relação com as pessoase com a sociedade que essas políticas se tornam mesmo realidade. Existe um chamado para cada um de nós. Coisas diferentes nos chamam, e pode ser a vontade de criar ambientes de coexistência, de convivência, de entender que eu posso conviver com o outro. Pode ser a vontade de restaurar, de recuperar. Pode ser a saudade de lembrar de um lugar, de uma cultura que a gente já não tem mais”.

Ecoturismo e a Travessia Mico-Leão-Dourado

No sábado (1º), segundo dia da visita da comitiva, foi inaugurada a Travessia Mico-Leão-Dourado, com 140 km de trechos conectando várias paisagens na Bacia do Rio São João. O traçado será conectado a Trilha de Longo Curso “Volta ao Rio”. Por isso, um dos destaques da cerimônia, no Parque do Mico, em Silva Jardim, foi a assinatura do Acordo de Cooperação (AC) entre a Associação Mico-Leão-Dourado, a Rede Brasileira de Trilhas e o Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
Na cerimônia, Rita Mesquita convidou os presentes a refletirem sobre o papel que cada um pode assumir diante da crise climática.
“A natureza nos inspira, nos desafia e ela nos torna melhores: mais criativos, mais observadores do mundo. Nosso mundo está mudando, e para quem ainda não acredita nisso, nós temos que ser mensageiros. E está mudando numa velocidade que a gente mal consegue entender. Vocês são observadores da natureza e podem ajudar a levar essa mensagem ainda mais longe, porque a gente precisa enfrentar o enorme desafio da crise do clima e da biodiversidade”, reforçou.

Travessia e geração de renda
Heitor Pereira e Liviane Pires, proprietários do sítio Boa Sorte, também receberam a visita do MMA. Eles mostraram o SAFS Café implantado na propriedade e, agora, já se preparam para incorporar o ecoturismo ao negócio, tudo impulsionado pela Trilha de Longo Curso Travessia Mico-Leão-Dourado.
“A Travessia vai passar na nossa porta, então a gente já tem uma suíte aqui para hospedar. Temos o projeto de expandir, de fazer uns chalezinhos para poder receber mais turistas, mais visitantes. O guia de turismo aqui da cidade, o Vaguinho, tem uma agência, a Aventura SJ, e já está levando o pessoal para fazer essas trilhas. Ele criou um passaporte da agência, e já colocou a gente lá. Então, estamos nos estruturando para receber também esses grupos, que vão vir caminhando ou de bike, que é muito forte aqui na nossa cidade”, contou a agricultora, Liviane Pires.

Gestão Territorial
No âmbito da gestão territorial (eixo Transversal), o Projeto GEF Áreas Privadas fortaleceu vínculos e aproximou instituições, como o Inea, o ICMBio, a Emater, prefeituras e o Sindicato Rural de Silva Jardim, promovendo encontros com o objetivo de discutir soluções para demandas dos proprietários rurais. Entre elas, a regularização por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR), transição agroecológica (havendo a aplicação do IATA – Instrumento de Avaliação da Transição Agroecológica – em propriedades), possibilidades de financiamento e compensação financeira para quem tem áreas protegidas, por meio das Cotas de Reserva Ambiental (CRA) e Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA).
Durante o projeto também foi apresentada pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) a possibilidade de destinação de parte do ICMS Ecológico que chega aos municípios a donos de RPPN, com a demonstração do resultado obtido pela Prefeitura de Antonina (PR) ao aplicar a medida.
“Celebramos o apoio do Projeto GEF Áreas Privadas, junto ao Ministério do Meio Ambiente, que nos permitiu executar uma série de atividades para fortalecer o nosso trabalho no território, a conservação em áreas privadas, mas de uma forma muito integrada com os agricultores, os proprietários rurais, as unidades de conservação. Então, a gente está muito feliz”, comemorou Luís Paulo Ferraz, secretário executivo da Associação Mico-Leão-Dourado.
Educomunicação e as Geladeiras Culturais

Educação, comunicação, cultura, sustentabilidade e meio ambiente. Uma combinação em forma de projeto capaz de criar uma conexão forte do homem com a natureza, com a sua terra e com a sua gente. E foi isso que o Projeto GEF Áreas Privadas fez, ao fortalecer as geladeiras culturais na Bacia do Rio São João e criar a Geladeira Ipê-Amarelo, dentro da biblioteca de uma escola pública que teve parte da estrutura destruída pela queda de uma árvore no começo do ano.
Ana Paula Santiago, diretora da escola e coordenadora da Geladeira, participou do encontro de encerramento do projeto. Ela agradeceu a chegada da iniciativa a Gaviões, mesmo sendo uma área mais afastada do centro de Silva Jardim, e deixou uma mensagem de compromisso com o que foi plantado pelo GEF Áreas Privadas.
“Para mim é total início, porque estou num gás, numa vontade de fazer o que foi plantado. E isso é muito legal porque chegou no tempo que tinha que chegar. O Projeto GEF abriu uma porta absurda para a gente valorizar aquele lugar, para a gente fazer com que as crianças percebam a importância de estar ali, porque muitas famílias pensam em sair, porque é a roça. E a gente chega com pensamento totalmente diferente. Quero só agradecer. A escola vai ser parceira o tempo inteiro, pois a gente acredita no poder da educação. O projeto não vai acabar, a gente se compromete a fazer a nossa parte, buscar parceiros, a gente não vai desistir, está só começando”, disse Ana Paula.
Já na Geladeira Cultura da Varginha, o projeto envolveu crianças e jovens numa produção audiovisual que fortaleceu o vínculo da juventude com o território e toda biodiversidade presente.
“A gente ensinou para eles como é que se pega a câmera, como se filma, se constrói uma história, para, de fato, conseguir fazer um trabalho que seja crítico, que seja deles, que venha da comunidade. O vídeo está no Circuito de Tela Verde e todo o Brasil poderá conhecer o trabalho deles. Educação ambiental é isso, precisa partir da comunidade. O que a gente quer falar, quais são os nossos problemas e como usar essa ferramenta”, explicou Letícia Abadia, analista ambiental do Departamento de Educação Ambiental e Cidadania do MMA.
A Geladeira Cultura da Varginha foi criada em 2015 por Ivailze Nascimento, carinhosamente chamada de dona Val na comunidade. Com a ajuda do projeto, ela conseguiu melhorar a infraestrutura do espaço, que agora também abriga uma confecção, que ensina costura e gera renda para mulheres da comunidade. Para ela, o que fica do trabalho é um legado.

“Esse pertencimento está com as crianças. Eu sei que isso vai muito além, vai permanecer para sempre! Porque, quando eu não estiver, haverá outras pessoas para cuidar disso e continuar transformando vidas, como já acontece aqui dentro”, disse dona Val.
“É um território que já era bastante pulsante, que já tem um histórico de décadas de atuação da Associação Mico-Leão-Dourado. E esse projeto, gerando essa efervescência de várias ações acontecendo num período curto de tempo, remobilizou atores com diferentes dedicações e atividades produtivas no território. Eu acredito que isso deixa uma herança, um legado superimportante para a nova fase dessa região e de atuação da Associação Mico-Leão-Dourado”, disse Carlos Eduardo Marinello, supervisor do Projeto GED Áreas Privadas e chefe de gabinete da SBIO/MMA.

Texto: Ariane Ludmila Marques