Na COP15, GEF Áreas Privadas participa da mesa “RPPNs como Corredores de Vida” e debate estratégias de conectividade em áreas com alto valor de conservação
Mesa promovida pelo projeto destacou o papel da conservação voluntária, os desafios da governança em territórios privados e caminhos para transformar conservação em um ativo estratégico
Na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15/CMS), o Projeto GEF Áreas Privadas promoveu uma mesa para debater o papel das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) para a conectividade ecológica e seus desafios.
Na sexta-feira (27/3), a mesa “RPPNs Como Corredores de Vida” reuniu especialistas e representantes do setor público e da sociedade civil para discutir o papel das RPPNs na proteção de espécies migratórias e na conexão de paisagens – um dos principais desafios atuais da conservação.
As espécies migratórias percorrem longos percursos que dependem de uma rede de áreas protegidas. Nesse sentido, as RPPNs atuam como pontos estratégicos de descanso e recomposição. São ambientes que protegem e dão condições de vida para que esses animais realizem suas rotas com pontos de apoio, abrigo, alimentação e oportunidades de reprodução.
A conservação dessas áreas naturais, porém, depende em grande parte da atuação de proprietários rurais que decidem manter essas reservas protegidas de forma perpétua. Ao fortalecer a conectividade entre grandes áreas naturais, as RPPNs permitem o deslocamento seguro das espécies, contribuem para a preservação contínua dos habitats e viabilizam seus processos migratórios.
Ao longo do debate, ficou evidente que a conservação voluntária não é apenas complementar, ela é estruturante – principalmente em biomas onde a maior parte do território está sob domínio privado, como o Cerrado e o Pantanal.
Conservação como exercício de cidadania e estratégia de sistema

O diretor de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Pedro Cunha e Menezes, destacou que as RPPNs representam uma dimensão singular no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
“As RPPNs são, talvez, a maior expressão da conservação como exercício da cidadania. Não é o governo que define a área protegida, é uma decisão individual de quem está no território, abrindo mão de outras possibilidades econômicas para assegurar a conservação.”
Segundo Menezes, esse esforço voluntário ainda carece de reconhecimento à altura de sua relevância, mas representa um ativo estratégico para o país. Ele ressaltou que as RPPNs já são, em número, a categoria mais representativa entre as unidades de conservação e seguem em expansão. O diretor também reforçou a necessidade de avançar na gestão integrada dessas áreas:
“A gente precisa deixar de pensar nas RPPNs como unidades isoladas e passar a enxergá-las como parte de um sistema. Hoje, o grande papel delas é a conectividade.”
Nesse contexto, Menezes destacou a importância de instrumentos como os corredores ecológicos e mosaicos, além do alinhamento entre diferentes categorias de uso da terra, como reservas legais e áreas de preservação permanente.
Conectividade como eixo estruturante da conservação
Em sua fala, o superintendente executivo da Funatura, Pedro Bruzzi, reforçou a importância da conservação da biodiversidade em áreas privadas para a conectividade e para o sucesso da conservação. Bruzzi citou como exemplo prático a APA de Pouso Alto: um dos modelos de conservação em paisagens produtivas do Projeto GEF Áreas Privadas, coexecutado pela Funatura no Cerrado.
“Com o GEF Áreas Privadas a gente tem apoiado as RPPNs que colaboram com a conservação no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e dentro da área da APA, que sofre ameaças bem significativas do agronegócio. O GEF AP tem apoiado a implementação de RPPNs em um projeto novo e exclusivo para essas reservas, com criação e elaboração de planos de manejo. Estamos implementando uma articulação com a rede de proprietários e um conjunto de ações superimportantes para a questão da conservação no território”.
O superintendente destacou, ainda, que o fortalecimento das RPPNs passa necessariamente pela construção de redes e relações de confiança.
“A conservação em áreas privadas é, acima de tudo, um trabalho de relacionamento. É o proprietário que está ali no território, que atua como guardião da área. E é a partir dessa rede que a gente consegue avançar.”
Bruzzi também chamou atenção para a complexidade de promover conservação em contextos onde o uso econômico da terra é predominante, como no Cerrado e no Pantanal, e apontou a necessidade de consolidar mecanismos que tornam a conservação viável também do ponto de vista econômico.
“A gente ainda enfrenta a ideia de que conservar não é uma atividade rentável. Precisamos mostrar que a natureza pode, sim, ser um ativo. Créditos de carbono, créditos de biodiversidade e pagamento por serviços ambientais são caminhos fundamentais para isso.”
A conectividade ecológica foi apontada como elemento-chave para garantir fluxo de espécies, manutenção de processos ecológicos e resiliência frente às mudanças climáticas. Nesse cenário, as RPPNs assumem um papel estratégico ao funcionar como elos entre áreas protegidas maiores, especialmente em regiões com forte presença de propriedades privadas.
Ao reunir diferentes perspectivas e experiências, o debate evidenciou que o futuro da conservação passa pela cooperação entre governo, sociedade civil e proprietários rurais, e pela construção de soluções que reconheçam o valor ambiental, social e econômico da biodiversidade.
Participaram da mesa representantes do MMA, da Funatura, do Instituto Terrabrasilis, da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e do Instituto Arara Azul, que enriqueceram o painel com diferentes perspectivas sobre a importância da conservação em áreas privadas para as espécies ameaçadas.
Texto: Lara Réquia
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O Projeto GEF Áreas Privadas – Conservando Biodiversidade em Paisagens Rurais é coordenado tecnicamente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), financiado pelo Global Environment Facility (GEF) e implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Sua gestão financeira é realizada pelo Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS). Os principais objetivos são contribuir para a conservação da biodiversidade, fortalecer a provisão de serviços ecossistêmicos e ampliar o manejo sustentável da paisagem em áreas privadas no Brasil.